O bom, o mal, e o feio duma mudança súbita de carreira

Era resolvida ser cirugiã, mas a vida tinha outros planos

Sempre amava roupa e estilo. Este amor começou cedo, quando de criança a minha mãe deixava eu e minha irmã escolher um novo vestido para usar na véspera de natal. Eu passava horas estudando catálogos para escolher o vestido certo. E quando chegava nos correios, o guardava no meu closet com a reverência que um padre dá a um ícone na catedral, tirando-o todos os dias para admirar a costura e os tecidos (Confesso que faço a mesma coisa até hoje! Quem se identifica? Haha).

Mas a moda não era para mim. Sempre fui estudiosa, aquela menina que tudo mundo procurava na véspera das provas no colégio. Venho duma família cheia de médicos, enfermeiras, e psicólogos. Sempre fui inspirada na dedicação e paixão que meus pais e tios tinha para trabalhar com gente. Era trabalho digno, sério, que exigia anos de estudo. Como tenho uma personalidade às vezes um pouco intensa, é fácil entender porque eu me imaginava fazendo esse tipo de trabalho.

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Pode parecer egoísta, mas eu nunca tive dúvidas sobre como é que eu ia deixar a minha marca no mundo. Eu tinha uma preocupação com fazer uma Diferencia (sim, com ‘d’ maiúsculo), e depois de muitos acontecimentos e vários períodos de dor e de crescimento, continuo com essa mesma preocupação.

Resolvi ser médica

Eu ia ser cirurgiã plástica para vítimas de queimadura. Aquilo era o grande Porquê da minha vida. Resolvi correr atrás dessa carreira aos 17 anos, quando estava fazendo serviço comunitário num hospital em Malaui, um país rural no sudeste da África. Lá vi um nenê queimado que ia, no dia seguinte, receber três amputações das pernas e dos braços. Fui marcada pela injustiça disso; um ser humano sem voz, um inocente, que ia viver numa sociedade mal-preparada para pessoas com deficiências (na verdade, TODA sociedade tem que ser melhor preparada para todas as pessoas, né?).

Então, o que fazer? Amava ouvir o meu pai, que é medico, falar de ciência e medicina. Adorava trabalhar com as mãos, com a mente, e por cima de tudo, me desafiar a fazer alguma coisa difícil.

Por isso, resolvi ser médica – e ser a melhor medica que eu podia ser. Por isso, não estudei ciência na faculdade (aqui nos Estados Unidos, tem que cumprir o bacalaureato antes de conseguir entrada na faculdade de medicina, e o bacalaureato pode ser em qualquer área). Estudei relações internacionais porque além de ser interessante, me dava uma perspectiva única, maior que o meu mundinho aqui na Califórnia. Queria entender como uma pessoa, suponhamos aquele nenê em Maláui, encaixava no sistema de medicina, na economia, na sociedade, etc. Então foi isso que eu fiz.

Foi só depois de receber o diploma de relações internacionais que comecei a estudar ciência para conseguir a entrada na faculdade de medicina. Aqui ser médico é um caminho longo, sem duvida! Mas eu estava disposta a percorrê-lo, e trabalhei muito duro por muito tempo.

Estava preparando para finalmente encher as aplicações para faculdades de medicina quando fui acidentada.

… E tudo mudou num instante

Eu e a minha amiga estávamos andando na faixa de pedestres, perto do meu apartamento, quando fui atropelada por um carro.

Fui jogada mais ou menos 10 metros no asfalto. Graças a Deus, não quebrei nenhum osso, mas levei uma pancada séria à cabeça. Aconteceu no verão de 2015.

Daí, comecei um caminho novo, de recuperação, de frustração, desespero, ignorância da gravidade dos meus ferimentos, a recusa total de que a minha vida tinha sido mudada para sempre.

Depois de dois anos, me dei a cara com a verdade – eu nunca ia ser capaz de voltar para escola. Tinha perdida a capacidade de estudar, de lembrar ao longo prazo, de aplicar as lições à vida, e mais mil coisas. A habilidade de ter um emprego ‘normal’, de seguir um horário tradicional, tinha acabado também. Mas eu não tinha perdido tudo.

Voltando ao zero

Resolvi voltar ao zero – o que é que eu tinha para contribuir ao mundo? O que é que não foi perdido no acidente?

Minha criatividade, habilidade de escrever, paixão por moda – tudo disso foi salvo. Ás vezes eu me perdia por horas ou dias completos em escrever, em analisar moda. Meu coração me dizia que essas habilidades formavam a única direção que eu tinha, mas meu raciocínio me contradizia em todo passo. Como podiam a moda e criatividade mudar o mundo, espalhar alegria, e o melhor a vida as pessoas?

A verdade é que nunca podemos decidir, com nitidez, qual rumo é que temos na vida. A única coisa que nos leva a fazer é lidar com paixão, integridade, alegria. Se faço isso, aquela maldita Diferença vem junto. Leva fé, mas eu sei que vem.

A minha intenção aqui é fornecer um pouco de alegria, de lembrar-nos (ok, para ser sincera, para me lembrar porque me levo muito a serio!) que a vida nem sempre tem que ser séria, e que a alegria nunca é frívola. Pretendo sempre lidar com compaixão, transparência, e interesse no verdadeiro bem-estar de vocês leitores.

Então, seja bem-vindo ao meu blog. Prometo ser autentica, honesta, escutar ao vocês, e, tomara, apresentar-lhes com moda interessante, divertida, e inspiradora!

Tem um momento na sua vida que mudou tudo, ou que te marcou para sempre? Deixe-me saber nos comentários!

Beijos,

Stig Mendes