A Grande Resenha Feminista da Semana de Alta Costura: Primavera 2019

Esta semana, escutei uma entrevista no podcast Fashion No Filter com a colunista de moda do The New York Times, Vanessa Friedman. E deixe-me te dizer que mudou a forma em que vejo a moda.

Sempre acreditei que a moda é uma expressão política, e que o clima político, económico, e social influencia as tendências.

Mas uma parte de mim sempre resistiu o analises da moda. Nunca tive problema nenhum com analisar livros, filmes, e outros tipos de arte – mas moda? Talvez eu acreditasse, sem ser ciente, que moda não era tão ”inteligente” como literatura. Que burrice, que snobaria!

Eu queria aprender analisar a moda, mas não sabia como. Eu não tinha uma entrada, pois tudo parecia um pouco superficial. Queria aprender a dizer mais que, ”gosto disso,” e ”não gosto daquilo.”

E aí entrou aquela entrevista maravilhosa com a Vanessa Friedman.

Quando ela analisa a moda, em vez de pensar, ”ah, não gostei do jeito que aquela peça fica no modelo,” ela faz perguntas. O que ‘é estas roupas estão dizendo sobre o estado atual das mulheres? Estão dando mais poder e liberdade para ela, permitindo que ela possa se expressar e agir na própria vida dela? É relevante a hoje em dia? Está introduzindo uma ideia nova, que fortalece e aumenta a nossa visão do que mulher pode ser e fazer?

Escutei a essa entrevista na hora certa, bem no meio da semana de alta costura. E respondeu às duvidas que eu tinha, que nem eu mesma sabia que tinha – como é que eu vejo a moda?

Comecei a fazer as mesmas perguntas que a Friedman. E de repente, a moda ficou ainda mais viva, mais interessante, e eu, cada vez mais curiosa.

Tenho MUITO a dizer sobre os desfiles, principalmente com respeito de feminismo. Aqui vou resumir três desfiles diferentes – Dior, Viktor e Rolf, e Valentino, os que chamaram a minha atenção com o tratamento de assuntos feministas. Então, vamos lá?

Dior

Um dos primeiros desfiles da semana, a Dior montou um circo em Paris! Confesso que não sou fã de circo – não gosto de palhaço, não gosto da sujeira, não gosto do tratamento de animais, o clima – eco, não gosto de nada que tem a ver com circo.

via Harper’s Bazaar

Sabendo disso sobre mim mesma, tentei assistir o desfile sem prejuízo. E admito que gostei do que eu vi (menos o ambiente de circo, haha!).

A Maria Grazia Chiuri, a diretora artística da Dior, impôs elementos brincalhões sobre o visual elegante típico da marca. Mas vem também no anestético ”circo” é aquele clima melancólico, um pouco escuro, a tensão entre a sua ”atuação” em público e a sua vida e mundo interior. Acho que a maioria das pessoas podem se identificar com isso, pelo menos um pouco.

via Harper’s Bazaar

O que a Chiuri está a dizer é que nós mulheres podemos ser complicadas. Não temos que ficar aí, quietas e bonitinhas. Podemos ser brincalhonas, podemos sentir-nos tristes, ou felizes. Temos permissão de admitir que é difícil andar na linha entre a nossa performance em público e a nossa realidade íntima.

Via Vogue
Via Vogue
Via Vogue
Via Vogue
via Harper’s Bazaar

Tem também uma camada de feminismo mais literal, isso sendo as acrobatas que a Chiuri contratou para fazer parte do cenário da apresentação. A tropa é composta puramente de mulheres, mostrando que sim, mulheres são fortes – o show durou por volta de 15 minutos, que é muito tempo para sustentar a amiga no ar!

via Harper’s Bazaar

Viktor & Rolf

Para ser sincera, a minha primeira reação quando vi as peças desta coleção foi, ”eles só queriam se destacar no Instagram.” E sim, destacaram! Ficou viral, e … bem, você vai entender quando ver as peças. Por exemplo:

Não tire fotos, por favor. Acho que o Viktor e o Rolf sabiam exatamente qual seria o resultado do recado neste vestido – olhe só à foto, às pessoas por trás do modelo, tirando fotos! Hahah! É marketing brilhante. Via Vogue.

Eu usaria aquila? Haha, NUNCA. Mas não importa (leia neste post porque).

Bem, não tem nada de sutil nesta coleção. Mas é por isso mesmo que gostei tanto dele.

Ás vezes, algumas coisas tem de ser gritadas, porque você já perguntou com gentileza, já com firmeza, já providenciou as evidências, e ainda ninguém te deu moral.

Como, por exemplo, racismo, machismo, desigualdade, corrupção, aquecimento global, ou fato muito ignorado de que a Ikea aumento o preço do cachorro quente por vinte e cinco centavos. A resposta deles:

Se importe! Via Vogue.

A ideia é que as vezes, principalmente para nós mulheres, temos que gritar para ser vistas na sociedade – mesmo se significa que as pessoas não gostem de você.

Que me conduz à essa peça:

Não sou tímida, simplesmente não gosto de você. Via Vogue.

E essa:

Fique brava. Via Vogue.

Levante a mão se você já teve aquela dilema de não querer parecer ”gentil” demais, porque pode parecer com que você está paquerando, e também não querer parecer brava porque está tentando se proteger contra avanços amorosos. Já tive épocas na vida quando eu enfrentava esse problema todos os dias no trabalho, e conheço muitas mulheres que diriam a mesma coisa.

Via Vogue.

Tenho tantas coisas a dizer sobre esta coleção. Sobre a utilização de desenhos híper-femininos, como se zombassem o jeito de que as mulheres são infantilizadas e minimizadas. E os vestidos são enormes, desafiando a ideia de que as mulheres não devem ocupar muito espaço.

Os vestidos berram, pareço bonitinha, mas sou HUMANA com ponto de vista, e estou A Q U I.

Amen.

Valentino

O diretor criativo da marca, Pierpaolo Picciolo, queria se diversificar a alta costura para refletir as identidades diversas das mulheres. A meta dele foi criar uma coleção que refletisse a individualidade das mulheres, usando formatos grandes e fluidos, combinações de cores inéditas, e, melhor de tudo, um ênfase na beleza negra. 45 das 65 modelos eram negras, incluindo a lendária Naomi Campbell, que fechou o desfile.

Picciolo queria desafiar o conceito tradicional do cliente de alta costura. No início, a couture era para mulheres brancas, e como tal, os designers contratavam modelos brancos.

Mas hoje em dia, felizmente, o público quer ver várias perspectivas representadas na passarela. E Piccioli é ciente disso.

Muitas vezes, o não inclui as perspectivas e experiências das mulheres afro-descendentes – e na minha opinião, esse tipo de feminismo não é feminismo verdadeiro. Se queremos andar para frente, temos que incluir TODO MUNDO. É um esforço de equipe! E parece que o Piccioli está de acordo.

Espero que a diversidade na apresentação dele não fosse apenas uma ferramenta para apoiar um fim criativo, e sim que ajuda a mudar as nossas espectativas de quem deve estar na passarela. Queria ver esta diversidade se espalhar para dentro das empresas, nas ateliês, e até na clientele. Também gostaria de ver modelos de idades e tamanhos diversos – mas, passo a passo, né?

via Vogue
via Vogue
via Vogue
via Vogue
via Vogue
via Vogue

São muito mais designers que não consegui mencionar aqui – a Guo Pei com a estética de rainha-guerreira, a Iris van Herpen com os vestidos impressos em 3D que parece com coral, e muitos mais!

Quais peças foram as suas favoritas? O que é que você achou da semana de alta costura?

beijos,

Stig.