Resenha da Semana de Moda em Nova Iorque, Outono/Inverno 2019

Aqui nos EUA, há um clima de incerteza sobre o que parece ser quase tudo. O país está discutindo cada pedacinho da sociedade, seja saúde universal, direitos das mulheres, ou disparidades salarais. E, como já disse várias vezes aqui no blog, a moda é um espelho do nosso mundo. Então, dá para entender por que muitos designers esta semana teve dificuldades em responder às perguntas de ”aonde vamos daqui?” e ”como é que devemos fazer roupas relevantes às mulheres de hoje?”

A pergunta é sempre a mesma – mais dado o clima atual, foi mais difícil responder com voz unificada. Por isso, muitos críticos estão observando que a semana foi incoerente, que não existia harmonia entre os designers.

Mas com todo respeito, não concordo. Acho que agora está um momento difícil no mundo, e então vamos ver reações diferentes no mundo da moda. Eu gostei de ver o ponto de vista de cada grife, porque cada um nos ofereceu um rumo diferente.

Em geral, vi três reações à pergunta de como a moda vai prosseguir neste mundo confuso:

  1. Vamos escapar (ou viajar no tempo, ou criar outro mundo)
  2. Vamos enfrentar
  3. PÂNICO

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Deixe-me explicar.

Vamos Escapar

Viajando no tempo

Às vezes é necessário viajar, seja literalmente ou figurativamente. É por isso que Netflix faz tanto sucesso, né?

Vimos esta semana muitos designers que exibiam coleções nostálgicas, principalmente pela década de 70. Michael Kors, Naeem Khan, Longchamp, e Cyntha Rowley tinham vibes de disco, hippies, e rock and roll daquela época. Kors até contratou o ícone da década, Barry Manilow, para fechar o desfile com o hit Copacabana. Foi caprichoso, sim, mais achei muito divertido!

Michael Kors via Vogue
Longchamp via Vogue
Cynthia Rowley via Vogue

Zimmerman também viajou no tempo, mas para outra época – a Segunda Guerra Mundial. A coleção dela foi baseada na vida da espiã neozelandesa Nancy Wake, que juntou informações da França e ajudava as pessoas escaparem nos Nazistas. Legal, né?

Embora a imagem glamurosa da mulher linda, misteriosa, e todo-poderosa seja clichê (acho uma forma de machismo, pois coloca as mulheres num pedestal em vez de aceitá-las como pessoas humanas, mas isso é outro sujeito), acabei gostando da coleção. Por que? Bem, o fato de que a designer Nicky Zimmerman é mulher ajuda. Mas também, e talvez mas importante, a impressão que tive não foi uma da ”mulher misteriosa e sensual,” senão duma pessoa com metas difíceis, mas que vai conseguir através de enfoque, coragem, e trabalho. E isso é uma história muito mais interessante do que o mito da mulher ”femme fatal.”

Bem-Vindo/a ao meu Mundo

A outra forma em que os designers nos oferecerem uma fuga dos rigores da nossa realidade foi inventarem outros mundos inteiramente.

Christian Siriano via Vogue

O Christian Siriano imaginou o mundo do futuro, caprichando nos metalizados e silhuetas modernas. Até fez com que a Ashley Graham parecer uma navegante espacial num vestido transparente, cheia de cristais. Mas ele também criou vários vestidos em cores saturados – no entanto, a mulher do futuro ainda vai gostar de cor, segundo ele. Enquanto o Siriano não cria roupas para as mulheres que trabalham em posições de poder, como ternos ou roupa de dia, o trabalho dele ainda é importante para feminismo. Ele é famoso por contratar modelos de tamanhos e idades diversos, que no mundo da moda falta muito.

Ralph Lauren via Vogue
Ralph Lauren via Vogue France

Em Ralph Lauren, ele recriou o café que tinha aberto em Nova Iorque, que representa o amor que nós americanos temos pelo café (tanto a bebida quanto o local, haha). A boutique dele foi completamente transformada para um café sofisticado, porém aconchegante. Foi um mundo em que as únicas coisas que existiam eram roupas em preto, branco, e dourado, croissants, e claro, café. A coleção foi simples e elegante, nada muito chamativo – bem a cara da marca.

Oscar de la Renta via Vogue
Oscar de la Renta via Vogue

Oscar de la Renta foi inspirado na Córdoba, no sul da Espanha. Enfeitou a passarela com arcos no estilo mouro, e a coleção incluía estampas mouriscas e espanhóis tiras de azulejos e tapetes. Achei a coleção MUITO linda, elegante, e marcante. A-dor-EI!

Alice + Olivia via Vogue

Na Alice + Olivia, em vez de montar uma passarela, fizerem uma mistura de showroom e festa, enfeitado com esculturas de flores e mariposas. O tema da coleção foi fantasia, um mundo imaginário e brincalhão. Enquanto alguns críticos não gostassem da coleção, dizendo que é cansado, eu particularmente gostei dela. Amo cor e estampas, e tinham muito delas. E um pouco de feminismo flagrante, com camisetas com o texto ”forte protagonista fêmea” e ”vá se amar”. Feitas para Instagram, não?

Alice + Olivia via Vogue

Vamos enfrentar

Sempre podemos contar com a The Row, Proenza Schouler, e Tibi para criar coleções modernas e minimalistas. Mesmo que eu não seja minimalista, tenho muito respeito por esse estético. E no mundo de hoje, muitas mulheres gostam de usar roupas mais simples com bom caimento para trabalhar em escritório (pelo menos aqui nos EUA). Já ouvi muitas das minha amigas dizerem que se se ”produz” muito para ir ao trabalho, não vão ganhar o respeito dos colegas. É ruim, porém a verdade.

Mas além disso, não é todo mundo que quer usar roupas chamativas, e para estas pessoas existem muitas opções.

Proenza Schouler via Vogue

As linhas simples e modernas são bem ”usáveis” em quase qualquer situação.

Tibi via Vogue

The Row via Vogue

Mas para quem quer ir no trabalho com toque mais vibrantes, marcas como Cushnie e Carolina Herrera estão aqui para te ajudar:

Cushnie via Vogue
Carolina Herrera via Vogue

Achei as roupas das duas coleções práticas, sofisticadas, e cheias de vida.

Essas marcas criaram roupas para mulheres em posições de poder. É fácil imaginar uma chefe usando uma jaqueta da The Row ou uma calça da Cushnie para ir a uma reunião e fazer as coisas do dia-a-dia na impresa dela. As roupas que fabricamos nos dizem muito sobre o estado das mulheres na nossa cultura, e isso é um bom sinal.

Pânico

Qualquer clima de mudança vai incluir um certo nível de ansiedade. Na minha opinião, dois designers usaram este sentimento para criar as coleções – Jeremy Scott e Tom Ford.

A coleção do Jeremy Scott foi 100% preto e branco – mais não era nada desinteressante. Foi um verdadeiro assalto nos olhos, e talvez seja por isso que muitas pessoas gostaram dela. As roupas foram feitas com estampa de manchete de jornal, simbólica da inundação de mídia que todos nós recebemos todos os dias. Quase dá pânico só de olhar às roupas, porque as manchetes estão orientadas em direções e tamanhos diferentes. Ademais, ele usava muitos lacinhos, que por motivos que devo explicar em outro post, não aguento mesmo.

Mas o efeito funcionou. Ele nos transmitiu aquele pânico que sentimos todo dia a ler o jornal ou escutar à rádio. Admito que não gostei da coleção, porém respeito o motivo por trás dela.

Jeremy Scott via Vogue

O Tom Ford optou por fazer o contrário – em fez de se explodir com ansiedade, se retraiu. Ele falou com a Vogue, dizendo que queria sentir segurança nas roupas, que está gasto com a negatividade no mundo de hoje, e queria criar uma zona de conforto com esta coleção. Ele não arriscou muito, porém ainda assim, conseguiu criar uma coleção linda.

Tom Ford via Vogue – quando o Tom Ford trabalhava por Gucci, ele ficou famoso por desenhar um terno vermelho. Por isso, este look tem significativo, sendo bem dentro da zona de conforto do estilista.

Achei tão legal que ele foi honesto e falou que estava se sentindo inseguro. É coisa rara, não?

Então, isso é tudo por enquanto! Na segunda, falaremos do show do Marc Jacobs, pois tenho muito para dizer sobre ele. Até lá, feliz fim-de-semana!

Beijos

Stig