Como já deve ser óbvio, não cresci falando português. Sim, a minha família têm raízes madeirenses (através da Guiana), mas o meu avô não ensinou português ao meu pai nem às minhas tias.
Na época em que meu avô veio para Califórnia, tinha ainda mais prejuízo contra quem não falava inglês do que hoje em dia. E, como ele tinha apenas doze anos de idade, era muito mais susceptível à pressão da sociedade. Então, resolveu falar português apenas com os pais e com mais ninguém.

Na faixa do meio: a minha avó, o meu pai (Papa Mendes aqui no blog), a minha bisavó, meu primo, minha tia
No chão: as minhas tias e prima
Berkeley, California, 1952 (mais ou menos)
De fato, segundo o meu pai, tanta era a preferência dele falar inglês que na maioria das vezes optava por responder aos pais nesse idioma em vez de português, mesmo que eles falassem português em casa. Ele não queria falar português com o meu pai porque não queria que ele sofresse dos mesmos preconceitos contra imigrantes. Na época, se você falasse outra língua em casa que não fosse inglês, era marcado como imigrante e, como tal, não americano.
Vejo a ironia aqui e tenho certeza que vocês a veem também. Meu avô sofreu tanto para que os filhos não tivessem a mesma vergonha de não serem vistos como ‘americanos’, e aqui vem vindo a neta dele desfazendo o seu esforço!

Para mim, português faz uma parte importantíssima das raízes da nossa família. Desde pequena (cinco, talvez seis anos) eu sabia que tinha que aprender português. Da minha perspectiva, minha família tinha perdido um elemento básico de quem é. Sempre fui alguém que apreciasse linguagem e o poder que ela tem. Cada idioma é uma nova lente com que ver e entender o mundo! E meu avô, mesmo com motivos razoáveis pela época dele, tirou esse recurso maravilhoso das nossas vidas. Entendo o porquê, mas acho que ele entenderia o meu também.
Todo isso é só para explicar porque, aos 18 anos, fui para Lisboa estudar sozinha por quatro meses. Quando cheguei, sabia dizer ‘onde está a casa do banho,’ ‘chamo-me blah blah blah’ e ‘eu queria três cervejas geladas’ – ou seja, as três frases que aprendi dos CDs de português que comprei antes de viajar. Que confusão que eu tive! Não entendia nada. O meu espanhol do colégio tanto me ajudou quanto me atrapalhou. Caramba, pobre bebezinho da Stig.

Pobre bebé nada! Quando voltei aos Estados Unidos menos de quatro meses depois, já estava falando (mais ou menos) fluentemente com os amigos brasileiros. Como é que consegui?
Bem, quero enfatizar alguma coisa – não só génio, não tenho um talento especial para linguagens, mas também não sou péssima.
Sabe o que me ajudou? O atitude. Lembrei de três coisas, três mantras, que compunham a minha fundação quando pensava que eu nunca ia aprender nada. Vamos lá então?
Isso me leva ao primeiro ponto:
1. Se jogue!
- Quer aprender falar outro idioma? Vá lá e aprenda.
- ‘Lá’ não tem que estar num outro pais. Pode ser com um amigo, numa aula, um grupo de conversação, pode ser através de series no Netflix ou até por Instagram.
- Qual seja a sua situação, tem oportunidade ampla de se jogar e aprender!

Adiantemo-nos dois meses. Estou no elevador com o meu amigo Manel que – do seu nome já é óbvio- é português. Por acaso, ele fala pelo menos quatro línguas, incluindo inglês quase melhor que o meu. Em fim, um vizinha dele entrou no elevador e nós três falamos um pouco em português. Nem me lembro de que – provavelmente do tempo o de futebol, sei lá.
Antes dela sair, me virou e disse, filha, o seu português é péssimo. E saiu, deixando Manel e eu boquiabertos enquanto as portas abriram e fecharam. Manel estava com raaaaiva e começou, quando ganhou a habilidade de falar novamente, a me defender: será que essa senhora fala quantas línguas? Ela sabe o quanto é difícil aprender? E algumas outras palavras que não devo escrever aqui.
Olhei para ele e disse-lhe, estou em Lisboa há dois meses. Claro que meu português é péssimo! E ri.
Era ridículo mesmo esperar que uma americana recém-chegada em Portugal sem conhecimento anterior da língua teria o mesmo nível de conversa que um português!
Não sei de onde veio essa confiança. Até hoje me refiro a esse momento, porque é uma lembrança importante para todos com vontade de aprender, ou que já estão aprendendo, um novo idioma.
…Que me leva até:
2. Vai ter medo …
- Você vai parecer tolo.
- Você vai sentir-se idiota.
- Você vai errar, e muito.
Já sentiu isso? É um bom sinal! Significa que está forcando-se e que está aprendendo. Há que fazer espaço pelos erros. É assim que aprendemos!
Não esqueça do mais importante:
3. …E vai ser melhor apesar do medo PORQUE:
- Você vai ficar cada vez mais corajoso.
- A opinião dos outros vai ficar cada vez menos importante.
- Você vai ganhar a habilidade de comunicar com mais pessoas, de tocar mais vidas, e construir mais pontes entre culturas.
Escrevo isso tanto para vocês saberem um pouco da minha historia e normalizar a experiência de aprender uma segunda linguagem quanto para mim lembrar de onde venho. Erro muito ainda em português? Claro. Vou continuar errando, tomara cada vez menos à medida que aprendo mais.
E hoje? Não imagino a minha vida sem português. Faz uma parte tão fundamental de quem eu sou que se eu tiver qualquer procedimento medico que requer anestesia, acordo sem habilidade de falar inglês por algum tempo. Só sai português. Depois que fui acidentada, não conseguia falar inglês por mais ou menos oito oras. Só saia português (todas as palavras saiam fora da ordem, mais era português assim mesmoJ). Meu marido é brasileiro e falamos português em casa. Naturalmente, treinamos a minha cachorra em português (mas ela continua ser bilíngue. Sim, sou aquela pessoa que insiste que a cadela fala duas línguas).
Claro que a situação de todo mundo é diferente, mas de qualquer modo é importante se dar crédito pelas conquistas. Após tantos anos, esqueço o quanto que fiz e quando olho para trás, nem acredito quão longe é que andei. (até que agorinha tive que pesquisar quando se usa o quanto e quando se usa quão. Espero ter usado a palavra apropriada, haha).
Procuro SEMPRE melhorar, sempre praticar, sempre correr atrás. Ás vezes quando erro, me sinto vergonha se alguém me corrige. E daí, eu paro, respiro, e me lembro que o meu orgulho não pode atrapalhar o meu progresso. 99% do tempo, a pessoa que me corrige simplesmente quer ajudar-me. Ela não está tramando para a minha derrota!
Ao aprender português, também aprendi não ligar para as opiniões dos outros. Aprendi me jogar no que eu queria e não pedir desculpas. Aprendi como pedir ajuda, como ser mais humilde, e como me desafiar a ser o melhor que possa ser.
Isso é verdade para qualquer meta. Não se limite por causa de gente mesquinha, ou por medo de ser julgado. Se joga!
Você têm dicas sobre aprender um novo idioma? Me fale nos comentários de baixo!
Beijos,
Stig

