À luz de Brexit, qual é o estado da moda britânica, e para onde vai?
Na verdade, não faço ideia. A única coisa que consegui entender dessa semana de moda foi que a questão da identidade britânica pairava sobre todo desfile.
A tensão entre a realidade política, social, e econômica da saída iminente da União Europeia e a natureza internacional de moda era óbvio. Mas como é que o isolacionismo pode coabitar com uma indústria tão global?
Um Clima Internacional

Há a neozelandesa Emelia Wickstead, que se inspirou da personagem da Sofia Coppola do Poderoso Chefão, Parte III. Quantas nacionalidades são implicadas naquela última frase?

Duro Olowu, via Vogue
E o Duro Olowo, um designer nigeriano e como a Wickstead, baseado em Londres. A inspiração dele veio da cantora e ativista sul-africana, Miriam Makeba.

Uma das jóias da moda britânica é sem dúvida a Mary Katrantzou, nascida em Atenas, e educada nos EUA. Ele é considerada uma demi-couturier, ou quase no nível dos designers da alta costura francesa.
Erdem

Erdem Moramioglu é turco e canadense, mas a coleção dele foi inspirado na Principessa Orietta Doria Pamphilj da Itália (que nome, né?). Essa veio duma família nobre e tradicional da Roma, mas casou com tenente inglês e adotou duas crianças inglesas. Ela faleceu em 2000, mas a inspiração do Moramioglu foi na viagem que ela fez para Londres em 1963. Naturalmente, a coleção foi repleta de estampas barrocas, misturadas com as cores chamativas da década de 60.
Richard Malone

Richard Malone, um irlandês morando e trabalhando em Londres, é naturalmente um pouco ansioso sobre a transição do país com o Brexit. Como irlandês, pode ser um pesadelo burocrático para ele conseguir continuar na Inglaterra e manter a empresa dele aberto (pode ler mais na Vogue Americana aqui). Ele lidou com a ansiedade por meio de nostalgia pelas festa comunitárias típicas nas aldeias britânicas, quando a comunidade se reúne numa sala alugada sob luzes florescentes com bolos caseiros. Bem, não sei exatamente como são essas festas, mas já assisti muito Call the Midwife e imagino que estaria alguma coisa assim.
Foi uma picada divertida de camp britânico (veja o que é camp aqui. Vai ser o tema da Met Ball este ano). Achei a escolha de enfocar na experiência comum entre os britânicos comovente, e apropriado pelos tempos. E enquanto pode parecer que Malone está olhando para trás, ele não está evoluindo ás avessas – ele é líder na moda sustentável, usando matérias recicladas (um dos vestidos foi feito de camas caninas recicladas. Nem brinco).
Peter Pilotto

O show do Peter Pilotto se localizou no Reform Club em Londres, que segundo à Vogue é o local mais ”britânico” possível, exceto o Buckingham Palace, é claro. Sir Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes era sócio do mesmo club, então deve ser bastante original, né? Não tem coisa mais britânica que isso!
Na coleção do Pilotto, vimos estampas e tecidos ingleses clássicos, como lã e xadrez. Mesmo assim, ele incorporou estampas da empresa tradicional da Hungria, Zsolnay. Parece que não tem jeito evitar as influencias internacionais!
Burberry

Se fosse apenas um desfile que destacou o rompimento na sociedade inglesa, teria sido o do Riccardo Tisci da Burberry (sim, outro nome italiano – porque a moda é global, gente! Mas falaremos mais disso daqui há pouco). Sem a plateia saber, ele tinha montado duas salas diferentes com ambientes contrários. Uma era mais luxuosa, parecendo com um cinema de luxo particular. A outra era mais industrial, com andaime montado nas paredes e – estranhamente – crianças escalando e pendurando dele durante o desfile.

Dado que a meta do Tisci foi destacar os contrastes da cultural e do tempo britânicos, não é difícil ver o que está fazendo com os duplos cenários dele. Ele criou duas plateias diferentes, em ambientes diferentes, porém todo mundo viu os mesmos modelos e as mesmas roupas. O clima por volta de cada pessoa vai afetar a percepção de cada observador, o qual nem é ciente do fato de que há outra forma de assistir o show. Na vida, fazemos a mesma coisa – presumimos que todo mundo veja as coisas da nossa perspetiva, e muitas vezes ficamos presos por dentro da nossa própria perspetiva. E com o polêmica do Brexit, e a divisão do país, faz sentido que ele queria levar este assunto para frente.
A Moda é Global, Gente
Ainda fico na dúvida – o que é a face da moda britânica na sombra de Brexit? No mínimo, parece um mundo à parte da mentalidade de isolacionismo. Na minha opinião, isso mesmo é um dos fortes da indústria da moda. Temos designers gregas se virando em ícones britânicos, o clube do Sir Conan Doyle é anfitrião às estampas húngaras, e estilistas nigerianos estão homenajeando figuras sul-africanas, tudo em Londres.
Não há como negar a natureza internacional da moda inglesa, e que alívio que os designers de hoje nem tentam. É apenas olhar para as coleções incríveis deste núcleo internacional para ver que a diversidade é fundamental nas criações deles. Espero que, independentemente dos resultados do Brexit em março, a moda continua neste caminho.
E você, o que é que acha?
beijos,
Stig.

