Semana de Moda em Londres, Outono/Inverno 2019: Edição Brexit

À luz de Brexit, qual é o estado da moda britânica, e para onde vai?

Na verdade, não faço ideia. A única coisa que consegui entender dessa semana de moda foi que a questão da identidade britânica pairava sobre todo desfile.

A tensão entre a realidade política, social, e econômica da saída iminente da União Europeia e a natureza internacional de moda era óbvio. Mas como é que o isolacionismo pode coabitar com uma indústria tão global?

Um Clima Internacional

Emilia Wickstead, via Vogue

Há a neozelandesa Emelia Wickstead, que se inspirou da personagem da Sofia Coppola do Poderoso Chefão, Parte III. Quantas nacionalidades são implicadas naquela última frase?

Interesting that they’re holding hands, but looking in opposite directions, no?
Duro Olowu, via Vogue

E o Duro Olowo, um designer nigeriano e como a Wickstead, baseado em Londres. A inspiração dele veio da cantora e ativista sul-africana, Miriam Makeba.

Mary Katrantzou, via Vogue

Uma das jóias da moda britânica é sem dúvida a Mary Katrantzou, nascida em Atenas, e educada nos EUA. Ele é considerada uma demi-couturier, ou quase no nível dos designers da alta costura francesa.

Erdem

Erdem, via Vogue

Erdem Moramioglu é turco e canadense, mas a coleção dele foi inspirado na Principessa Orietta Doria Pamphilj da Itália (que nome, né?). Essa veio duma família nobre e tradicional da Roma, mas casou com tenente inglês e adotou duas crianças inglesas. Ela faleceu em 2000, mas a inspiração do Moramioglu foi na viagem que ela fez para Londres em 1963. Naturalmente, a coleção foi repleta de estampas barrocas, misturadas com as cores chamativas da década de 60.

Richard Malone

Richard Malone, via Vogue

Richard Malone, um irlandês morando e trabalhando em Londres, é naturalmente um pouco ansioso sobre a transição do país com o Brexit. Como irlandês, pode ser um pesadelo burocrático para ele conseguir continuar na Inglaterra e manter a empresa dele aberto (pode ler mais na Vogue Americana aqui). Ele lidou com a ansiedade por meio de nostalgia pelas festa comunitárias típicas nas aldeias britânicas, quando a comunidade se reúne numa sala alugada sob luzes florescentes com bolos caseiros. Bem, não sei exatamente como são essas festas, mas já assisti muito Call the Midwife e imagino que estaria alguma coisa assim.

Foi uma picada divertida de camp britânico (veja o que é camp aqui. Vai ser o tema da Met Ball este ano). Achei a escolha de enfocar na experiência comum entre os britânicos comovente, e apropriado pelos tempos. E enquanto pode parecer que Malone está olhando para trás, ele não está evoluindo ás avessas – ele é líder na moda sustentável, usando matérias recicladas (um dos vestidos foi feito de camas caninas recicladas. Nem brinco).

Peter Pilotto

Peter Pilotto, via Vogue

O show do Peter Pilotto se localizou no Reform Club em Londres, que segundo à Vogue é o local mais ”britânico” possível, exceto o Buckingham Palace, é claro. Sir Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes era sócio do mesmo club, então deve ser bastante original, né? Não tem coisa mais britânica que isso!

Na coleção do Pilotto, vimos estampas e tecidos ingleses clássicos, como lã e xadrez. Mesmo assim, ele incorporou estampas da empresa tradicional da Hungria, Zsolnay. Parece que não tem jeito evitar as influencias internacionais!

Burberry

Burberry, via Vogue

Se fosse apenas um desfile que destacou o rompimento na sociedade inglesa, teria sido o do Riccardo Tisci da Burberry (sim, outro nome italiano – porque a moda é global, gente! Mas falaremos mais disso daqui há pouco). Sem a plateia saber, ele tinha montado duas salas diferentes com ambientes contrários. Uma era mais luxuosa, parecendo com um cinema de luxo particular. A outra era mais industrial, com andaime montado nas paredes e – estranhamente – crianças escalando e pendurando dele durante o desfile.

Burberry, via Vogue

Dado que a meta do Tisci foi destacar os contrastes da cultural e do tempo britânicos, não é difícil ver o que está fazendo com os duplos cenários dele. Ele criou duas plateias diferentes, em ambientes diferentes, porém todo mundo viu os mesmos modelos e as mesmas roupas. O clima por volta de cada pessoa vai afetar a percepção de cada observador, o qual nem é ciente do fato de que há outra forma de assistir o show. Na vida, fazemos a mesma coisa – presumimos que todo mundo veja as coisas da nossa perspetiva, e muitas vezes ficamos presos por dentro da nossa própria perspetiva. E com o polêmica do Brexit, e a divisão do país, faz sentido que ele queria levar este assunto para frente.

A Moda é Global, Gente

Ainda fico na dúvida – o que é a face da moda britânica na sombra de Brexit? No mínimo, parece um mundo à parte da mentalidade de isolacionismo. Na minha opinião, isso mesmo é um dos fortes da indústria da moda. Temos designers gregas se virando em ícones britânicos, o clube do Sir Conan Doyle é anfitrião às estampas húngaras, e estilistas nigerianos estão homenajeando figuras sul-africanas, tudo em Londres.

Não há como negar a natureza internacional da moda inglesa, e que alívio que os designers de hoje nem tentam. É apenas olhar para as coleções incríveis deste núcleo internacional para ver que a diversidade é fundamental nas criações deles. Espero que, independentemente dos resultados do Brexit em março, a moda continua neste caminho.

E você, o que é que acha?

beijos,

Stig.