Eu perguntei, você respondeu! No IG, perguntei qual desfile você queria que eu avaliasse aqui no blog, e o da Moschino Primavera/Verão 2020 ganhou! Versace ganhou o segundo lugar, e Gucci a terceira, porém distante (mas acredite, eu teria amado investigar aquelas imagens terríveis das coletes-de-forças, que horror foi esse, gente?)
Bem, acho que NINGUÉM sabia no que havíamos nos metido com este desfile.
[Todas as fotos são da Vogue]
Na superfície, o desfile é apenas mais uma das várias críticas que o diretor criativo Jeremy Scott costuma fazer sobre a cultura. Vestidos inspirados pelo artista famossíssimo Pablo Picasso. É brincalhão, bombástico, com modelos caminhando por molduras enormes, e – num caso inesquecível – usando moldura de vestido. É tudo que a gente espera da marca, né? Alguma coisa arguta, divertida, ousada.

Mas sabemos o que acontece quando começo uma frase com ”na superfície.” Significa que há um MUNDO a esconder-se por baixo daquela superfície simples!!
Então, vamos lá ver o quê está acontecendo aqui – porque há MUITO!
Abolir a Perspetiva
Quando vi as respostas à minha pergunta no IG, pensei-me, ”f$da, não sei NADA da arte!” Então corri à internet pesquisar mais sobre a carreira do Picasso, e sobre o estilo de pintura que ele fazia.
Encontrei logo um vídeo da minha historiadora de arte preferida (além da minha tia, claro), a Sister Wendy. Aprendi um pouco mais sobre Picasso e o estilo mais famoso dele, o qual ele (em parte) inventou, o cubismo.
O que a Sister Wendy disse sobre este estilo, o porque ele é tão importante, é que ele foi o primeiro a ”abolir a perspetiva” na arte, abraçando ”muitos ângulos numa vez só.”

Então, é natural que a gente, também, examina esta coleção da Moschino de muitos ângulos e várias perspectivas! A nossa meta é conseguir entender a coleção duma forma mais profunda – mas dito isso, começaremos na superfície e depois iremos mais fundo.
Ready?
Primeiro, a Superfície: Tendências de 2020 à la Moschino
Quem não gosta de seguir tendências? Queria começar com isto porque é informação lógica esperar duma crítica de moda.
Na minha experiência, a gente vê as tendências primeiro nas passarelas, e alguns meses depois, nas vitrines das lojas de gama-alta, e depois alguns meses ou até anos, nas ruas.
Quais destas você acha que vai durar?
Mangas Bufantes

Formas Exageradas

Alfaiataria

Ombreiras
Tenho muito para dizer sobre estas – pode conferir mais neste post!

Cores Ousadas

Mais Profundo: Sobre a Marca Moschino
O Jeremy Scott é famoso por não diferenciar a arte ”alta” da ”baixa,” ou ”comum” – e igualmente famoso pelas críticas da cultura popular. A sua última coleção criticou a cultura de consumismo com a sua tema de jogo televisivo, e as coleções anteriores comentaram no ritmo da vida moderna e a cultura dos telefones celulares.
Mas o recado de sempre é ”A MODA É ARTE!!” Digo isso todo em letras maiúsculas porque ninguém nunca acusaria o trabalho do Scott de usar voz baixa, haha.

Uma extensão natural do tropo ”moda é arte” é que o desfile em si mesmo é arte performativa; que, na minha opinião, ele é.
Então se a moda é arte, a passarela é uma exibição de arte em cima de ser arte performativa. O Scott executou estas ideias paralelas com a energia e entusiasmo particular à marca. Temos uma exibição de arte que mostra peças inspiradas nas pinturas do Picasso num contexto de arte da performance. Esta confusão de criar arte sobre arte num palco de arte é o que chamamos em inglês ”meta-arte.” O Scott adora a meta-arte, porque é arte que se refere a outra arte, seja uma pintura se referindo a outra pintura, ou um livro se referindo a um filme, por exemplo. E é isso o que o Scott está fazendo aqui.
As Picassos
Quem conhece arte bem vai saber qual look corresponde a qual obra do Picasso. Quanto a mim, tive que pesquisar no Google, haha! Mas se eu fosse tentar descrever cada santo look e a sua inspiração, a gente estaria aqui por uma década! Mesmo assim, eu adoraria saber mais sobre as pinturas e o papel que elas tiveram na coleção – se você sabe mais, me conte! Acho super interessante.

Mas vale a pena saber que os historiadores de arte dividem as obras do Picasso em fases. Eu particularmente posso identificar algumas, elas sendo o período rosa, o período azul, as fases africana, cubista, e surrealista.




As Mulheres: Onde as coisas se complicam
Aqui é onde as coisas se complicam, e muito. Há muita informação, nuance, e perspectiva de entender, que também significa muita potencial por se refletir, aprender, e empatizar. E é isso o propósito da arte, não é?
Vamos começar com uma pepita pre-ci-o-saaaa do Picasso mesmo:
“Para mim, há apenas dois tipos de mulher: as deusas e as capachos.”
Uhhhh …. ok.
Olhando isto de ângulos diferentes (aqui vamos de novo com a meta-arte), posso ouvir essa frase em tons diferentes. Talvez o disse com orgulho. Eu teria muita vontade de localizar os seus órgãos machos e fazer uma cirurgia rapidinha, e você? Afinal das contas, é apenas uma outra forma de olhar, digamos, uma outra perspectiva, do complexo madonna-prostituta? Uma outra forma de encaixar as mulheres ou na caixa ”virgem” ou na ”puta”? A realidade é que a maioria de nós é 25% de cada uma e 50% bagunça pura. Toma lá, Picasso!
Agora imagine que ele o disse num tom triste. Porque independentemente do que ele quis dizer, a frase é triste mesmo. Uma pessoa que objetifica os outros raramente tem a oportunidade de criar conexões significativas. É alguma coisa tão solitária. E é isso que vejo nas suas pinturas de mulheres: confusão, solidão, feiura, perplexidade total.

Segundo a sua neta Marina, a confiança que ele tinha nas mulheres – principalmente as suas amantes inúmeras – como musas se manifestava assim: ” [ele] as domava, as encantava, as ingeria, e as esmagava sobre a tela. Depois que tinha passado muitas noites extraindo a essência delas, uma vez que estavam esgotadas, ele as dispunha.”
Claro, como qualquer pessoa, havia exceções a essas relações problemáticas, as principais sendo com a filha Maya e a amiga escritora Gertrude Stein. Mesmo assim, a história lembra do seu tratamento de mulheres, às quais o Picasso deve a sua carreira.
Arte Boa Faz Questionar
Então aqui temos um elenco de modelos, todas mulheres, literalmente encarnando as obras tanto do Picasso quanto do Scott.
E a pergunta que me faço – e a qual não tenho certeza que exista uma boa resposta – é se esta coleção demonstra as mulheres realizadas, empoderadas de hoje, a reconquistar a arte do Picasso, ou se, no ato de literalmente nos transformar em arte, em objetos decorativos, estamos continuando com a misoginia do artista?

Não sei a resposta, mas sei que ela não é bi-dimensional. Tenho certeza de que ela depende na perspetiva, e que provavelmente há muitas respostas. Cada uma apoia e dá forma ao jeito que nós entendemos a arte, sociedade, e humanidade hoje. Baseado no discurso que incendiou, pelo menos na minha própria mente, eu diria que a resposta não importa. O quê importa são as perguntas que essa coleção nos faz: Como é que nós afirmamos na frente da misoginia tão profunda na nossa sociedade?

Não sei se esta foi a conversa que o Jeremy Scott queria iniciar, mas não importa. Independentemente das suas intenções, a complexidade e peso das implicações da coleção sugiram que Scott é mesmo um artista, e talentoso também.
Mas por favor, não nos pinte de apenas deusas ou capachos.
Quero saber das suas opiniões! Me deixe saber!
beijos,
Stig.

