A semana de alta costura em Paris já começou! Parece que um milhão de designers já desfilaram, mas houve um que queria compartilhar aqui hoje: o de Dior, da diretora Maria Grazia Chiuri. Postei o vídeo do desfile de Dior Spring 2020 Alta Costura completo aqui em baixo:
Quer saber mais sobre a alta costura? Confira este post!
Primeiro: o cenário
Chiuri chamou a talentosa artista americana Judy Chicago, a primeira dama de arte feminista dos Estados Unidos. A artista tinha desenhado um projeto para comemorar feminilidade e criatividade, de escala enorme, lá em 1977. Até agora, a Chicago não tinha oportunidade nem orçamento para cumprir seu desenho. Chiuri, sempre investida em outras artistas mulheres, trouxe a Chicago a Paris para criar o cenário do desfile de Dior Spring 2020 alta costura.
A Chiuri queria explorar a criatividade feminina além do parto, o qual é tão frequentemente visto como o cúmulo do poder criativo feminil. Chiuri (também mãe) propõe que os limites da nossa criatividade chegam bem mais longe que apenas reprodução, embora a passarela-virada-em-peça-de-arte sugere que o ventre é mesmo a cede na nossa inspiração.

A estrutura em si mesma, quando vista de cima, cria a forma duma mulher deitada, nua. Os convidados entraram pela, bem, pela única entrada lógica para o sul dos dentes dela. E a passarela? Um tapete cor de rosa com círculos repetidos, semelhantes ao útero. Com flores.
Bandeiras bordadas à mão foram penduradas por cima da plateia com perguntas como, ”existiria violência?” ”os homens e as mulheres seriam equivalentes?” e ”a terra seria protegida?” todas respondendo implicitamente à pergunta pairando (literalmente) na cabeça da passarela: ”E se as mulheres governassem o mundo?”

Então, as roupas
Chiuri nos leva ao auge das noções de poder e criatividade na feminilidade ocidental – às deusas romanas (Chiuri, sendo romana, enfatizou o panteão romano em vez do grego). Ela abusou com destreza o peplos, a vestimenta fluida e drapejada que todos nós reconhecemos nas figuras do mundo ancião.

Em muitas forms, há sim poder no seu uso de peplos. Afinal das contas, é um modelo que oferece liberdade, um grande alcance de movimento, sem puxar para o lado de moda masculina. Ela drapeja e plissa numa forma que consegue os dois: peças livres, porém descaradamente femininas.

E quanto a Minerva?
A escritora aí no WWD observou que a Chiuri não conseguir aplicar as plissadas delicadas e tecidos ”teia-de-aranha” dos vestido aos terninhos. E quem sou eu para descordar com uma reporter do WWD? Ninguém! Então deixe-me dizer alguma coisa – eu também acho, mas acho que foi de propósito.

Sim, há um ar mais pesado dos terninhos, feitos de tecidos metálicos, grossamente plissados e dobrados. Mas sabe alguma coisa? Nem todas as deusas usavam vestidinhos levinhos de festa, tá bom Bridget? A Minerva, a deusa de sabedoria, artesanato, e tácticos marciais, nasceu usando armadura completa da guerra.
Armadura é exatamente a imagem que muitas das peças provocam, principalmente os ternos. Para muitas pessoas, as horas diurnas são quando vamos de ”guerra,” quando vamos ao trabalho ou atacamos o monte de coisas na lista de afazeres ou enfrentamos aquele vizinho de que ninguém mesmo gosta. Guarda os vestidos lindos, cheios de frou, deslumbrantes, para a noite – o dia é para armadura.

O problema do pedestal
E aqui vem o problema que tenho com este desfile: a Chiuri não propõe nada novo com respeito às mulheres e a nossa posição no mundo. A comparação entre mulheres e deusas, ou mulheres e anjos, ou mulheres e flores, é tão velha quanto a história. Sim, nós nos podemos ver nessas imagens de deusas, e há sim um jeito de tirar força delas.
O problema é, no entanto, que a adoração da mulher como criatura perfeita e divina tem existido ao lado, até potencializando, o machismo por muito, muito tempo antes da Friedman e The Feminine Mystique.
Esta visão da mulher divina é usada muito para nos tirar a humanidade, o direito de sermos imperfeitas, de ocuparmos espaço, de rirmos alto, de ficarmos com raiva, de falarmos palavrão, até de sermos consideradas engraçadas. O pedestal em que somos colocadas é uma ferramenta forte contra o feminismo, porque por cima dele, não podemos ser nós – humanas, bagunçadas, às vezes musas, às vezes porcas (falando de experiência pessoal, é claro).

Teria sido tão fácil amenizar este problema, fazer pelo menos uma meia-corajosa tentativa à inovação (além de fazer os convidados entrar por uma vagina – brava, meninas!). Que tal levar aquelas bandeiras bordadas lindas a sério, especificamente aquela que disse, ”as velhas seriam reverenciadas?”

Que tal começar por contratar modelos de idades diferentes, ao contrário do núcleo de 18-24 aninhos? Ou, no mesmo espirito, modelos de tamanhos diferentes? Tipos de beleza diferentes? Porque se você quer fazer uma declaração sobre deusas, faça uma forte, uma que a sua audiência merece.
O desfile de Dior Spring 2020 Alta Costura tinha tanta potencial, principalmente com a Chicago à borda. Não há como negar que as roupas são requintadas, celestiais, até. Infelizmente, a Chiuri contou demais com os tropos velhos da feminilidade para executar uma visão verdadeiramente inovadora, uma que reflete com precisão os corações e as mentes das suas musas: nós, as muito mortais, às vezes divinas, mulheres normais.
love,
Stig
Fontes: Vogue, The New York Times, The Guardian, e WWD

