Storytelling é a palavra de ordem hoje em dia, tanto no mundo da moda quanto na mídia social, e por bom motivo. Afinal das contas, criar e contar histórias fazem parte integral da nossa humanidade – não existe nenhuma cultura que não tenha tradição narrativa. Para mim, isto faz grande parte de por quê amo a moda tanto – a usamos para contar, tanto para os outros quanto para nós memos – como sentimos, quem nos acreditamos ser, quem queremos ser, o que é a nossa perspetiva. É magnética, visual, táctil, e sempre mais do que parece.
Foi justamente por isso que eu chamei as amigas para ver a exibição James Tissot: Fashion and Faith (moda e fé) no Legion of Honor, um museu dar arte aqui em São Francisco.


Por quê James Tissot
Não sei muito da história de arte – tudo que sei aprendi através de DVDs que assisti com o meu pai (família de nerds, haha), documentários da Sister Wendy, ou da minha tia que estou a história de arte na faculdade. Mesmo sendo ignorante, eu queria compartilhar o que aprendi sobre o Tissot porque a arte dele nos pode dizer muito sobre a nossa relação com a moda (e, talvez, a fé).
Incluí um clipe do site SF Station se você quiser ver um resumo das obras de Tissot (em inglês – não encontrei material em português!).
Resumindo, o Tissot nasceu em Paris em 1836, filho de comerciante de téxteis e dona de loja de chapéus. Enquanto trabalhava no mesmo era que os impressionistas, ele não se considerava como tal – era realista, e trabalhava primariamente em estúdios, até às vezes usando a nova tecnologia fotográfica de referência.
A moda
É fácil imaginar quanto mágico seria um armazém de téxteis para uma criança. Pelo menos para mim, lembrou das inumeráveis horas que passei ao lado da minha mãe na loja de tecidos, com centenas de rolos de tecidos, cada um com a sua história, mas cada um também uma tábua rasa. Simplesmente encantador para uma criança.

A primeira coisa que percebi, e acho o mesmo para a maioria das pessoas, é como o Tissot cria tecidos nas pinturas. Infelizmente, as fotos das obras são fraquíssimas em comparação com as de verdade – em pessoa, os tecidos parecem tão reais, quase de técnica mista, que é difícil não passar a bochecha na tela. Ele claramente entende como flui o tecido, como ele se comporta em ambientes e corpos diferentes, como ele dobra e se movimenta, tanto que vira óbvio que ele passou a vida inteira com tecidos ao lado.

Muitas das obras do Tissot são engraçadas – como esta, que mostra o error às vezes cometido pelos nouveaux riche: chegar na festa na hora.
Então, há as histórias por dentro de cada pintura, contas de arrivistas, musas moribundas, funcionárias de lojas, prostitutas, a porcaria informal dos aristocratas, turistas americanos que precisam de meia hora só para ver o Museu Britânico, todos obras grandes sobre momentos pequenos.


De perto, se vê o relógio às 10:30 – todo mundo sabia que o British Museum abria às 10, indicando que estes turistas americanos passarem apenas meia hora no museu . Parece-me que desde então, nada mudou, haha
E aquelas roupas lindas – mas não é a vestimenta em si mesma que se importa no fim, né? O importante é as pessoas se vestindo pela vida que desejam, pela aceitação que querem, ou por diversão, ou porque se faz sentir poderosas, ou talvez porque estão gastas da vida e não conseguem se importar nem um pouco. A roupa é sempre um sujeito na foto por direito próprio.

Uma referência brincalhona, até libertina à obra do amigo Manet, a (mais libertina ainda) Déjeuner sur l’herbe

Kathleen Newton era a musa e o amor da vida de Tissot, vista aqui na sua batalha contra tuberculosis, pouco antes da sua morte.
A fé
Após a morte da sua musa e companheira Kathleen Newton (vale a pena ler este artigo, em inglês, sobre ela), assim como uma visitação do Cristo, a arte do Tissot virou exclusivamente religiosa. Criou centenas de ilustrações em aquarelas da bíblia, muitas até inspirando cenários de filmes no século XX. Há TANTO dizer sobre a fé do artista, e se tiver interesse, sugiro este artigo (inglês) ou este site (breve, mas em português) para aprender mais.


As histórias que Tissot conta através da sua arte, muitas vezes usando o veículo da moda, são tão puras para mim: pessoas fazendo o melhor com o que a vida lhes tinha proporcionado, ou pessoas que estavam procurando o seu lugar no mundo, como se comportar, e, no fim, simplesmente como existir.
Infelizmente, descobri esta exibição há pouco tempo, e já termina no dia 9 de fevereiro. MAS, a boa notícia é que ela vai voltar – é so que var estar no Musée d’Orsay em Paris apartir de 23 de março até 19 de julho, 2020. Que vida sofrida – teremos que viajar à Cidade das Luzes para ver novamente. Quel dommage.
O que é que você acha das obras?
love,
Stig.

