A segunda parte da série Palavras Gregas de Amor, onde falamos de cada face de amor e o papel que tem nas nossas vidas.
A segunda palavra grega de amor é philia. Philia é a palavra que descreve o amor entre amigos, o amor de amizade.
Para mim, este amor é tão sagrado quanto o eros, do qual falamos na semana passada, ou do que qualquer outro tipo de amor. Afinal das contas, se diz que os amigos são a família que você escolhe, e concordo entusiasticamente com esse sentimento.
Amizade na cultura
Como cresci nos Estados Unidos, não posso falar detalhadamente da cultura de outros países. Mas falando pelo menos daqui – e generalizando muito – não pomos bastante valor nas amizades. Na mídia, vemos todo tipo de amizade, as glamorosas, as de conveniência, até as de competição. Amizades entre mulheres são vistas como profundamente competitivas, e as entre homens são distantes e simples, de poucas palavras.
Sabemos que a vida não é assim, que nenhuma relação cai dentro das linhas. Sabemos que as pessoas são complexas, profundas, com muitas faces, e que têm muito para oferecer aos outros. E sabemos que o que nos ata à vida são as ligações entre nós.
Então, por quê essa simplificação das amizades na midia? Uma teoria que tenho é que enfocamos tanto no amor romântico que esquecemos do poder das amizades. Você deve ter Um Grande Amor da Vida.
Mas, que não! Podemos ter vários amores da vida, de vários sabores.
Ademais, eles não têm que competir um com o outro.
Uma amiga não tem que competir com a outra. Um namoro do seu passado não está concorrendo contra o seu namorado do presente. A sua sogra não vai tirar o amor que o seu marido tem por você, só pelo fato que vocês duas têm amor por ele.
Como a minha mãe sempre diz, o amor nunca acaba, só aumenta.
Aristóteles
Ok, chegamos à parte em que fico um pouco nerdy. Mas quem não gosta de aprender coisas novas? Aprendi muito na pesquisa por este post e achei muito interessante. Então vamos lá!
Aristóteles escreveu muito sobre philia, criando três classificações de amor entre amigos:
- Amor da utilidade (troco de favores)
- Amor de prazer mútuo (você me faz sentir bem, e eu a você)
- Amor do que é bom, da natureza do outro (te amo porque você e você)
Para ser sincera, tenho dúvidas sobre o número 1. Amor pode existir quando a relação é uma de pura utilidade? Se houver um troco de favores, mais feito com amor, isso conta? O que é que você acha?
Do segundo ponto, também acho que o amor não pode ser completo se a relação for baseada somente no amor pelo que a pessoa te faz sentir. Então, você teria amor pelos sentimentos em vez pela pessoa, não?
Aqui vou dar um desviozinho. Tenho um amiga com um problema inédito, na minha opinião – ela é boa demais. Os poderes de paciência, de escutar bem, de realmente ver a pessoa na sua frente são de outro mundo. Ela é uma maravilhosa amiga, pois é carinhosa e engraçada e encoraja todo mundo ao seu redor a serem as melhoras versões de si.
O problema é que essas qualidades atraem muitas pessoas, sejam amigos ou namoros pretendentes. Todo mundo quer ficar perto dela por causa do jeito que ela os faz sentir.
Quantas vezes é que ela volta dum encontro e me diz, ‘’foi bom, é só que a outra pessoa não fez nenhuma pergunta sobre mim.’’ Ela fica com a sensação de que o outro gostou do fato que lhe escutou, que lhe fez sentir bem sobre si, de que ela riu sinceramente às piadas. E a outra pessoa sempre quer mais, mais um encontro, mais tempo, só mais. Mas nunca mostrou interesse nenhum por ela.
O que quero dizer é que os primeiros pontos do Aristóteles não significam nada sem o terceiro.
Lembra do que diz a minha mãe, que o amor só aumenta? É isso que acontece quando enfocamos no terceiro ponto – interesse no bem do outro, na natureza da pessoa, o que faz ela ela (ou ele, ou elx).
É aqui que mora aquele amor sagrado de amizade, o amor da família que nós escolhemos.
É desse lugar que vinha a minha amiga, a dos Poderes de Outro Mundo – quando ela fala com alguém, ela aborda a conversa com o bem do outro sendo a prioridade. Quando o outro não chega ao terceiro ponto, a relação não é sustentável. Cedo ou tarde, a amizade vai terminar.
Mas quando as duas pessoas chegam a aceitar e amar a natureza da outra, de se importarem com o bem da outra, algo maravilhosa acontece. A pessoa vira família.
Não importa a frequência de que os amigos se verem, nem quantos segredos um conta para o outro, nem o que um comprou pelo outro no seu aniversário. Aquela correnteza de amor pelo bem do outro permanece.
Tenho amigos que vejo várias vezes por semana, e outros que vejo de cinco em cinco anos ou até mais. A coisa bela de philia é que o ‘’tanto’’ de amor que tenho por cada pessoa é o mesmo. Não muda quando um de nós fica chateado, ou se um faz um enorme favor pelo outro. O amor é simplesmente o amor. Não pede mais do que se compadecer com o outro, de se apoiar – puramente porque você ama quem o outro é.
Então, um brinde às grandes amizades da vida!
Aos amigos te perdem no boate em Vegas, só para se encontrar por cima da mesa VIP, de joelhos, um cara despejando Patrón da garrafa direto à minha na sua boca. E que se joelhou ou meu seu lado, sem perguntas.
Aos amigos que se apoiam nos momentos mais feios, mais escuros da vida, quando parece que nunca vai sair da fossa, abraçando por horas num mar de lenções e choros feíssimos.
Aos que empolgam quando o outro cria novas metas, conquista novos sonhos, e realiza a sua vida apesar de desafios enormes.
Aos amigos que moram longe, mas quando se vê, parecem ser vizinhos de novo.
E a lista podia continuar, do tanto que sou grata pelas amizades de philia verdadeira.
Te encorajo fazer uma lista das grandes amizades da sua vida – e pensar nos momentos em que você se sentiu aquele amor philia. Prometo que você vai se sentir mais cheio de vida e grato pelas pessoas ao seu redor!
Então, me fale debaixo sobre as grandes amizades da sua vida. Quero saber!
Beijos,
Stig.

