paris fashion week 2019 - bourgeoisie

Esta semana de moda em Paris exibiu muito do que os críticos de moda se chamam ”vestimenta burguesa”. Parece que os designers estão fascinados com esta categoria e a noção de que os profissionais têm um uniforme de tons neutros, lãs leves, e um estilo conservador. Me lembrou muito de alguns dos mecanismos de enfrentamento que vimos dos designers em Nova Iorque (estou olhando para ti, Tom Ford!) para lidarem com um mundo cheio de incerteza. A roupa ”burguesa” simboliza estabilidade, segurança, e consistência. Não no sentido chato, senão no sentido confiável.

Balenciaga, via Vogue

[Obs: não uso a palavra ”burguês no sentido depreciativo (pode conferir o site do diccionário informal para ver o que quero dizer]. Estou falando dos profissionais da classe média e média-alta.]

A Burguesia Verdadeira

Nunca me dei conta de que ”burguesia” era também uma categoria de vestimenta. Talvez porque eu cresci mergulhada naquela cultura – era simplesmente normal para mim. A cidadezinha onde cresci na década de 90, uma época de prosperidade aqui nos EUA, fica pertinho de São Francisco. Por isso, e por causa das boas escolas públicas, muitos profissionais mudaram com as suas famílias para lá. Existe um ético de trabalho fortissimo, junto com uma fé enorme na meritocracia.

A maioria do povo, inclusive os meus pais, se esforçaram muito para conseguir viver naquela cidadezinha. A proximidade à cidade, a qualidade das escolas, e as ruas arrumadinhas vinham com um preço alto. Como resultado, a gente não tinha dinheiro para os extras. Tinha um carro prático, que ia ser usado até o ponto de quebrar. As crianças foram para escolas públicas porque a família estava juntando dinheiro para a faculdade. A maioria do dinheiro ia para pagar a casa, então não fazia sentido gastar com roupas de grife. A vida era estável, mais não luxuosa – mesmo assim, a gente cresceu com um gratidão enorme.

Chanel, via Vogue

Em nome de exatidão, deve acrescentar que também existia família ricas (algumas, muito ricas), que tinham casas no campo, carros de luxo, e um padrão de vida altíssima. Mas era a minoria.

A minha mãe, o meu pai, e o meu padrasto faziam parte da burguesia. Trabalhavam, e muito. Amavam as profissões respetivas deles, mas também sacrificaram muito em termos de tempo com a família em troca de segurança, consistência, e boas escolas para eu e a minha irmã. Tínhamos muita sorte, sem dúvida, e todos os dias me sinto grata por isso.

É Complicado

Pois tenho sentimentos complicados sobre a presença de roupa ”burguesa” nas passarelas. Por um lado, AMO que os designers reconhecem que existe uma forma prática de vestir-se, uma que agrada as mulheres profissionais. E as peças são incrivelmente lindas, mesmo sendo fácil de vestir e bem práticas. No desfile de Hermès, por exemplo, eu vi imediatamente um monte de looks que a minha própria mãe podia usar.

Giambattista Valli, via Vogue

No outro lado, conheço muita pouca gente burguesa que conseguiria comprar estas peças. Quem tem dinheiro extra para comprar um suéter por $800, depois de pagar as contas? Para mim, é um problema de accessibilidade – um que, na verdade, é um problema de quase todo mundo, não apenas a burguesia.

Minha Mãe

A minha mãe sempre tem sido a minha referência de como vestir num ambiente profissional. Ela já se aposentou, mais quando trabalhava ela criava um equilíbrio difícil entre usar roupas práticas e roupas mais chiques. Dava para ver a personalidade dela nas roupas, mais nunca sacrificou o profissionalismo.

Givenchy, via Vogue

Para conseguir isso, tinha que ser esperta com as compras. Ama roupas belas e bem-feitas, mais ela não e uma boba. Nunca ia gastar o pagamento da casa num par de sapatos. O closet dela era cuidadosamente escolhido, uma mistura de roupas do varejo, das lojas de departamento, e compras designer de consignação. Nunca comprava nada no valor total – sempre procurava as roupas com desconto. Quando preciso, ela levava roupas cosignadas para a sua costureira, ou concertava ela mesma, pois sabia costurar e tinha máquina. Ela não tinha muitas roupas, mas as que tinha, amava e usava fielmente.

Sacai, via Vogue

O Funil de Vendas até a Burguesia

Suponho que o constrangimento que sinto com está tendência burguesa tem a ver com como no diabo estas roupas vão chegar às mulheres que as inspiraram. As primeiras pessoas a comprarem estas peças serão mulheres abastadas, não as mulheres profissionais andando de carro velho para o escritório seis dias por semana. (Não quero depreciar as pessoas que compram roupas de grife – se tiver condição e te trouxer alegria, se jogue!!).

Mas imagino que as peças novinhas vão ser eventualmente cosignadas, e quando forem, vai ser uma mulher igual à minha mãe que as compra, remenda, e ama por muitos anos.

Hermès, via Vogue

E talvez isso é o ponto dessa onda de burguesia. Estes designers criam roupas que têm um encanto clássico, que são bem-feitas (assim se espera), que que podem ser usadas no dia-a-dia das pessoas comuns. Sejam compradas novas ou cosignadas, pelo menos os designers estão fabricando roupas para mulheres na força de trabalho. E é um passo no sentido certo, não?

beijos,

Stig.