Tenho quase certeza que nesta altura da minha evolução de estilo, consegui um tipo de auto-lavagem cerebral. E Nossa Senhora, sou grata.
No passado, eu nunca me sentiria confortável usando a roupa EXATA que eu queria usar, seja para a missa, para sair com o marido, ou para jantar com amigas. Sempre senti, em alguma forma ou outra, a pressão de me conformar, de não chamar atenção. Por isso, muitas vezes eu não usava a roupa que me caia certo, sabe?
Certo no sentido que a roupa reflete exatamente o meu mood, o ocasião, e como me vejo naquele dia. Aquela coisa que me faz sentir mais eu.

Aquele Je Ne Sai Quoi
E tenho quase certeza que ”aquela coisa” é tão simples e tão complicado quanto o quê liga a nossa vida interior ao nosso ambiente exterior. E esses são entidades que estão quase SEMPRE em fluxo, influenciados por fatores inumeráveis. Não falo somente do tempo e humor, mas claro que estes também têm um papel grande no que a gente veste.
O seu sentido de estilo é political e psicológico, ele tem consequências ambientais e econômicas, e é um recado tanto para você mesmo quanto aos outros de quem você acha que é.
Uma pesquisa rápida no Google sobre ”politics of pockets,” ”a política dos bolsos” em inglês, gere nada menos que 4 artigos dos sites de Vox, The Atlantic, Globe and Mail, e The Guardian entre os anos 2014 e 2019. E isso é apenas sobre bolsos.
Ah, sim. A moda é complicada. Até lembra do monólogo da Miranda Priestly do filme O Diabo veste Prada.
Dito isso, moramos numa sociedade onde temos agência sobre o que vestimos e como nos expressamos através da moda. É um privilégio enorme, mas admito que isso significa coisas diferentes para pessoas diferentes.
Para mim, a decisão do quê vestir sempre teve valor. A minha energia simplesmente flue naquela direção, desde criança. O exercício ou de moderação ou de exuberância sempre foi medido, calculado. Na maioria das vezes, eu simplesmente não queria chamar atenção. Olhando para trás, vejo que eu esperava permissão para me expressar, permissão que apenas eu me podia dar.
Aprendendo o Óbvio
Então, o que aconteceu? A vida, com as suas tragédias grandes e pequenas, as conquistas, e tudo de mais, aconteceu. E com cada etapa, aprendi mais. Fiquei mais dura, não no sentido mau, apenas mais forte. Ligava cada vez menos nas opiniões dos outros. Confiava mais comigo mesma.
Aprendi que nesta vida, a única pessoa que eu posso ser sou eu.
Tchan tchan!!
Quem diria?

E aí, Malibu?!
Um desses momentos decisivos foi depois que fui acidentada (pode ler mais sobre isso aqui). Perdi tanto da minha identidade, entrei numa época de dor crônica, e a cada momento eu tinha advogados criticando e analisando todo e qualquer decisão que eu tomava no processo legal que resultou do acidente.
Havia prazos de meses quando eu saia de casa de moletom, sem sutiã, alguma coisa que nunca teria feito antes do acidente. Eu parei de me importar com os julgamentos dos outros. E aí se alguém me achasse um porcalhão??
Também havia dias em quais a única forma que eu tinha para me distrair era através da roupa e maquiagem. Então, saia de casa completamente produzida para ir no posto ou para o mercado! Se as pessoas achassem que eu pretendia ser uma Barbie, tudo bem. Na verdade, uma vez alguém me passou na rua de carro conversível e me gritou, ”e aí, Malibu!” Tudo bem se achem que sou boba. Eles. Não. Me. Conhecem.
E as pessoas que me conhecem sim sabem que so, de fato, boba. Mas os demais não têm que saber disso 🙂
Não me importar tanto com as opiniões dos outros virou um hábito. O que começou como uma reação instintiva à minha situação eventualmente incorporou-se no meu ser.

A Pergunta Fundamental
Comecei a me pegar no ato de auto-censura. Eu pensava, Devo usar salto alto hoje. A palavra ”devo” tinha virado numa espécie de bandeira vermelha. Eu queria mesmo usar salto hoje? Às vezes, a resposta era Puxa, sim, me dá aquele scarpin! E outras, a resposta era uggghhh não.
A pergunta fundamental que comecei a me fazer era: ”A roupa que me visto honra quem eu sou hoje?”
Uma outra forma de fazer esta pergunta: ”O quê me visto hoje me vai me ajudar sentir mais presente na minha vida hoje?”
A beleza da mente humana é que foi construída para formar hábitos. E, enquanto para mim criar hábitos novos é d i f í c i l, por um motivo ou outro, esse ficou. E agora, até hoje, é uma pergunta que me faço em uma forma ou outra todo santo dia.
A liberdade é imensurável.

Auto-lavagem Cerebral
E então, é por isso que digo que fiz uma auto-lavagem cerebral. Com tempo, condicionei o meu cérebro a ser mais aberto a se expressar através da moda. Reescrevi as regras para mim mesma, baseando as minhas escolhas mais na minha realidade do que nas opiniões dos outros. Como um músculo, um hábito vira maior e mais eficiente cada vez que usa.
Hoje, me vejo saindo jantar com amigas usando ”um roupão chique” com lingerie à mostra. Ou, no outro lado, saindo para o mercado de moletom velho porque simplesmente me apetece.
Porque a decisão do quê vestir, enquanto mais complicada do que imaginamos, também é muito simples: seja você.
MUITO amor,
Stig.

