Há alguma coisa no ar, seja o mal cheiro do brechó ou as cinzas dos incêndios ao redor do planeta, mas os costureiros da alta costura estão sentindo alguma coisa. Tecidos reciclados, upcycling, até excursões no brechó apareceram nas passarelas da semana de alta costura em Paris na semana passada.
E justamente como deve ser, na minha opinião. É o trabalho do estilista de haute couture criar moda que transborda seus limites anteriores, que busca temas nas nossas subconscientes e lhes dão formas em carne e osso nas passarelas.
Não quero dizer que a eco-moda é apenas um fio delgado nas nossas mentes – pelo falando de mim, penso no meio-ambiente todos os dias e tento executar pequenas mudanças para minimizar o meu impacto. E de facto, o mais que escrevo agora, o mais que penso que talvez os designers não merecem parabéns por destacar um problema que vem vindo há muito tempo. A alta costura, supostamente, é a fronteira em tudo novo, progressivo, e inovador – me parece um pouco atrasado que este assunto venha à frente apenas agora, em 2020. Ou talvez, em vez disso, a grande notícia é que o facto em si mesmo que os couturiers estão usando eco-moda como um tema vanguardista ilumina a mentalidade até então atrasada no mundo da moda.
Mesmo assim, sou da opinião de que qualquer progresso é bem-vindo, não acha? Principalmente numa indústria que há pouco tempo foi flagrado queimando milhões de dólares de roupas não vendidas. Então destaquei aqui alguns estilistas que optaram por coleções sustentáveis esta semana de alta costura. Vamos lá?
Viktor and Rolf: alta costura com amostras em tecido
A noção de alta costura sustentável não é nova para Viktor Horsting e Rolf Snoeren. Em 2016, os designers começaram a pilhar o seu estoque de retalhos para criar novas coleções. Este ano, tendo gasto a sua dispensa de restos de tecidos, eles desenterraram metros de velhas amostras em tecido, correndo com a ideia de que da escassez nasce criatividade.
O resultado foi uma mistura de moda dos pioneiros com moda hipster, com as silhuetas volumosas de costume da marca, feitas com quadrinhos de retalhos.

Chapéus de lata lembraram a frugalidade da nossa bibliotecária favorita e a sua tendência de lavar, dobrar, e reusar o papel alumínio que cobria o escondidinho da noite passada. Também – e não sei se existe esta frase em português – lembraram os ”tin hats,” os chapéus de lata supostamente usam os teóricos da conspiração, principalmente os mais malucos. Olhando deste lado, o elemento paranóico dos chapéus de lata fez pouco para valorizar o propósito que a crise do meio-ambiente é verdade e alguma coisa – como diminuir produção de roupas – tem que ser feito.
Mas, se lhes dou o benefício da dúvida, podemos dizer que é apenas uma referência ao papel alumínio amassado dos restos de ontem (porque tampouco devemos desperdiçar comida, né?)

Culminando o leitmotiv de contra-cultura, muitas modelos tinham tatuagens em fonte gótico com frases cafonas como ”I have a dream” (tenho um sonho), ou simplesmente ”Love” nos braços, pescoço, e rosto. Os designers assim deixaram claro que, como coleções anteriores, queriam que esta fosse doce, mais não demais, cafona, mas também auto-consciente – e a esse fim, acho que conseguiram.
Julie de Libran: eco-newbie (mais ou menos
A prévia diretora artística por Sonia Rykiel, a temporada Spring 2020 marca apenas a segunda oferta de alta costura da Julie de Libran. Ela, como Viktor and Rolf, tira matéria do cesto dos retalhos – mais ou menos a metade das suas roupas são feitas com retalhos.

Enquanto ela não é de forma nenhuma um novato (já trabalho por Prada e Louis Vuitton), a sua linha recém-nascida ainda está no processo de criar uma voz clara. Até agora, acho promissora, uma mistura de feminilidade sincera e utilidade, muitas peças feitas para clientes aficionadas do armário-cápsula.

O facto que a de Libran usou até os últimos centímetros de tecidos de ”edição limitada” cria a escassez tanto desejada no mundo de alta costura. Qualquer fulana pode comprar um tecido, mas não é qualquer uma que consegue uma peça feita daquele tecido, que jazia por não sei quanto tempo naquele closet no escritório daquela estilista. É tão quotidiano, por um lado, porque para a maioria do mundo, é claro que antes de começar um novo projecto, você obteria um inventário dos materiais que já tem na posse. É outro sinal destacando o tanto que a moda está desligada da realidade. Mesmo assim, como disse antes, é sim um bom passo para frente!

Vai ser interessante ver o desenvolvimento da marca – espero ver uma voz mais unida, e mais uso de técnicas eco-friendly.
Maison Margiela: upcycling caótico
Enquanto isso, lá na Maison Margiela o John Galliano não só abraço o uso de retalhos senão literalmente foi no brechó à procura de materiais. A final das contas, a coleção dele foi inspirada na ideia de que, segundo ele, ”há roupa demais no mundo.” Tudo que podia ser criada já está no universo: agora é a hora de mergulhar-se no estoque já existente com um bisturi, rebentar as costuras das roupas de ontem, e montar peças novas sem piscar um olho se há emendas expostas ou descasamento de botões. É tudo uma parte do processo, de aceitar o conceito de escassez.

O Galliano desenvolveu as redes que usara em coleções anteriores, esta vez não cortando bem por completo o tecido, como se usasse um furador sem corte. O resultado foi um efeito excêntrico de lantejoulas, cru porém ordenado, espontâneo mais de alguma maneira lógico, semelhante à elegância caótica da marca.

Como de costume, o Galliano dispensou as delimitações de gênero, enfatizando ainda mais o seu tema: vamos voltar para as raizes da moda, às pessoas intrépidas que simplesmente tiveram que lidar com as materiais e ferramentas à sua disposição, e ao conceito radicalmente primordial que todo corpo, independentemente de sexo, precisa de roupa.
Per usual, Galliano did away with any clear gender delineations, further punctuating the underlying theme here: we’re going back to the roots of fashion, to the enterprising people who simply made do with the materials and tools at their fingertips, and to the radically primordial concept that every body needs to be clothed.
Ronald van der Kemp: o upcycler original
As contribuições do Ronald van der Kemp, mesmo não sendo novidade, não podem deixar de ser mencionadas aqui. Desde o início da sua marca em 2015, tem usado retalhos para criar as coleções de alta moda, muitas vezes usando técnicas ”novas” ao mundo da moda occidental.
A Vogue cita o processo usado para criar um casaco de pele ”fake”: ”feito à mão da Carpet for Life, uma ONG pequena que trabalha com mulheres marroquinas em pequenos vilarejos no Saara, gerindo uma renda para preservar o seu património e ajudar às suas comunidades a melhorarem a vida usando as técnicas antigas Boucherite de malhar para fazerem carpetes de restos de roupas ou tecidos.”

O casaco que resultou da assim dita técnica foi uma criação em preto e dourado feito para criticar os modelos de pele-fake que abusam do plástico. E enquanto para mim, não parece nada com pele, a textura e execução são contudo apelativas.

Van der Kemp, pelo menos nos meus olhos, estabeleceu um padrão desde o início da sua marca da alta costura sustentável – é apenas agora que outros designers estão começando a apreciar. Espero que os ”newbies” usam este ambientalismo da próxima-geração para criar competição, em vez de aproveitar por uma ou duas temporadas para só deixá-lo para trás se acabar a ”tendência.” Estou cautelosamente optimista, contudo, que com o aumento de ativismo (e dos níveis do mar), o mindset de sustentabilidade será um requisito dos couturiers, em vez dum bónus.
love,
Stig.
*Informação via Vogue, The New York Times, e Business of Fashion

