Como escrevi no post da sexta-feira passada, eu queria ter falado do show do Marc Jacobs – mas quando olhei às minhas anotações sobre o desfile dele, vi que realmente merecia uma postagem inteira.
Vou ser bem franca – eu tinha analisado as fotos do desfile, como faço com todos, mas eu sentia que estava faltando alguma coisa. Li as resenhas no New York Times e Women’s Wear Daily, e não entendia por que todo mundo estava falando deste show. Apenas olhando às fotos, não dava para entender o quê todo mundo estava vendo que eu não via. Para mim, estava mais ou menos.
Decidi ver o desfile em si mesmo, em vez de só ver as fotos. Como definitivamente não estava na primeira fila na fashion week (haha), fui de primeira classe para YouTube e assisti o desfile. E sim, fez TODA a diferença. Dei o link para o show aqui de baixo:
Como entender coleções
O negócio de entender desfiles é o seguinte: tem de analisar a coleção por completo, entendendo sempre que cada peça ajuda a construir uma identidade maior. Porque é isso que o designer está fazendo – construindo uma identidade para qual podemos identificar-nos. É o reflexo duma pessoa imaginária, e ao mesmo tempo, uma pergunta para o observador: quem é você em relação desta coleção? A moda e as roupas em geral são coisas psicológicas. São tão ligadas com identidade e como a gente se vê no mundo. É por isso que as coleções são complexas, pelo menos as boas. E na minha opinião, a do Marc Jacobs é muito boa mesmo.
Localização
O show foi localizado no Park Avenue Armory, um centro histórico das artes com um armazém gigantesco. A passarela foi construída no centro com um piso refletivo, e tudo menos ela e o quarteto de cordas ou lado estava completamente no escuro. Este quarteto, o American Contemporary Music Ensemble, tocava a música Aheym por Bryce Dessner, ”aheym” sendo ídiche por ”para casa”.
Normalmente, enquanto uma modelo começa voltar da passarela, outra já sai – assim sempre há mais que uma modelo na pista. Mas neste desfile, cada uma estava completamente sozinha no palco. Isso é, sozinha menos o reflexo dela naquele piso reflexivo. Enquanto ela anda, a única coisa que ela consegue ver é esse reflexo, mesmo sabendo que a audiência está ai no escuridão. Meio arrepiante, né?
Pois imagine: você está naquele espaço vasto ao lado de 179 outros convites, no escuro, e os únicos pontos iluminados são a passarela e o quarteto de cordas no canto do armazém. O ambiente quase te força a atenção em cada modelo, porque não existe outra coisa em que se enfocar. Você está vivendo neste momento sozinho, mas ao mesmo tempo está ao lado dos outros convidados, os quais não enxergue no escuridão. É um truque de teatro que anda na linha entre solidão e intimidade. Esta coleção tem tudo a ver com as contradições da vida moderna – o mundo exterior versus o interior, se proteger versus se expor. É justamente por isso qua a amo tanto!
Os Casacos
Sempre gosto de comparar o começo com o fim de cada desfile, porque geralmente há um arco à historia que o designer está tentando compartilhar. Este não foi exceção, e neste caso, as roupas começaram bem fechadas, quase rígidas, e pelo fim tinha se transformado mais livres, abertas, e exuberantes.

Começamos com casacos positivamente enormes e básicos que escondem quase tudo que fica por baixo. Me pergunto quantas roupas é que passaram na passarela que nem vimos! As proporções dos casacos eram gigantescas, tanto que chegam a criar a impressão dum escudo, bloqueando a forma da modelo da vista.

Mas então, Jacobs nos dá picadas de personalidade quando a modelo anda e as estampas dos vestidos e saias por baixo dos casacos ficam visíveis, apenas por um instante. Podemos ver que há charme, carisma, espírito por baixo daquele escudo de lã. E não é a verdade para quase todo o mundo? Todos temos aquela fachada protetora que mostramos ao mundo, mas por baixo sempre há mais. Quanto a mim, eu usava essa fachada muito quando trabalhava em escritório. Às vezes era necessário manter as outras pessoas (principalmente homens potencialmente predadores) num distância segura, mais não podia empurrá-las demais, senão podia prejudicar a minha posição no trabalho.
É isso que esses primeiros looks estão fazendo. Estão dizendo, ”estou aqui, mas estou me protegendo, e a propósito, tenho uma personalidade deslumbrante com que ainda não te confio.” Aqueles casacos simbolizam a proteção do nosso mundo interior. São os nossos mecanismos de enfrentamento que são tão necessários para prosseguir na vida, porém escondam muito também.
Penas

Ao decorrer do desfile, as roupas se tornaram mais extrovertidas, porém ainda um pouco resguardadas. A lã se evoluiu nas penas, que podem ser a única camada protetora na terra que permite o voo. Há liberdade nos vestidos cobertos de penas, mas continuam sendo peças protetoras, como se a mulher por dentro tinha se preparado para a realidade de voar. Ela está preparada para qualquer tempestade, e por isso, não vai perder a sua identidade.
Para Casa

No finale, há uma sensação de superar àquela cautela, principalmente com a escolha da modelo Christie Turlington Burns para fechar o show. A última vez que ela desfilou foi 20 anos atrás, e esta vez ela andou sem maquiagem, num vestido maravilhoso de penas pretas. Lembra que a música do desfile se chama Para Casa? Apropriada, não? Ela está de volta na passarela, exposta, porém forte. Ela não é menininha, senão uma mulher com experiência e auto-confiança. Amei que Jacobs a escolheu porque nos relata o recado de que nos realizamos através de experiência. O mito de mulher como criança ingénua é morto, deixando-nos ver a pessoa complexa que fica por baixo.
Então, no espírito da Vanessa Friedman, o que é que este show nos diz sobre ser mulher hoje em dia? Isso depende a quem se pergunte, porque a moda é tão subjectiva. Para mim, representou como me sinto às vezes como mulher tentando lidar com a vida, sempre andando naquela linha entre me proteger e me realizar.
E o mais que analiso o desfile, o mais que vejo. Me lembrou de que a moda é psicológico, é política, e, acima de tudo, é arte.
O que é que você viu neste desfile?
beijos,
Stig.

